quinta-feira, 13 de setembro de 2012


                     

 O CANTO DOS POETAS


               
     CALAFATE – O CANTADOR DE SETÚBAL

                                          VISTO POR UM BISNETO


     Rogério Peres Claro nasceu em Setúbal em 1921. Licenciado em Filologia Românica, foi professor do Ensino Técnico, jornalista e deputado à antiga Assembleia Nacional. É bisneto do poeta popular António Maria Eusébio, conhecido como “O Calafate”. Teve a gentileza de preparar para “O Canto dos Poetas” o artigo que se segue.


      Em 29 de Dezembro de 1968 foi inaugurado no Parque do Bonfim, por iniciativa do Rotary Club local, um busto em bronze do poeta popular setubalense António Maria Eusébio, falecido em 22 de Novembro de 1911. Estive presente à cerimónia, a convite do Rotary, na minha condição de bisneto, nascido em 6 de Outubro de 1921, dez anos após a sua morte. Tinha eu então, em 1968, 47 anos de idade e desempenhava as funções de director da actual Escola Sebastião da Gama e de deputado pelo distrito de Setúbal na Assembleia Nacional.
      Desde então, cresceu em mim a obrigação de dar a conhecer aos setubalenses do meu tempo a obra poética meu bisavô, que ficara conhecido pelo apelido de Calafate, pela profissão que desempenhara, e por Cantador de Setúbal, pelos versos da sua autoria que cantara até aos 90 anos.
       Rebusquei então na Imprensa da época as referências feitas à sua actividade de poeta e cantador e entre os papéis de familiares e de amigos. Assim cheguei a reunir 26.220 linhas de versos, sendo 9160 agrupadas em décimas.
       Com tanto material, foi-me possível elaborar os seguintes três livros de “VERSOS DO CANTADOR DE SETÚBAL”:

       Primeiro livro – Editado em 1985 na empresa tipográfica Ulmeiro, de Lisboa, abrangendo as recordações da vida do poeta, que ele narra em décimas a partir de 1906 e vividas por ele a partir de 1828. “Nessas recordações - diria o general Henrique das Neves, grande amigo do poeta, que fomentou a impressão dos primeiros folhetos - vemos desenrolar-se a vida de um proletário, de um plebeu, filho de pescadores, gente pobríssima; a história da luta de quem veio ao mundo desprotegidos dos outros e que, portanto, na vida do trabalho, teve de abrir caminho só pelo seu esforço. Assim foi que este analfabeto chegou honradamente aos 92 anos de idade. Do mesmo espaço, ele veio-nos contando o que viu, as grandes tragédias de que foi testemunha em parte. E como ele soube ver e observar! E que memória tão boa ainda hoje!”

       Segundo livro – Editado tal como o primeiro em 1985, o segundo volume (de 167 páginas) reflecte os grandes e pequenos acontecimentos da vida de todos os dias em Setúbal, como seu repórter tratando da perseguição religiosa, das festas populares, das posturas municipais, dos terrores do povo e dos casos de soalheiro.

       Terceiro livro – Só em 2008 veio a ser editado o terceiro e último volume dos versos do Cantador de Setúbal, agora pela empresa Corlito/Setúbal e em edição do Centro de Estudos Bocageanos. É um grosso volume de 341 páginas, no qual se descobre para além do poeta-repórter da cidade, o homem com as suas dores, as suas angústias, as suas desilusões.

       São três livros que nos dão a conhecer um setubalense que acompanhou a sua longa e rude vida de trabalhador no mar com uma produção literária merecedora dos elogios dos grandes escritores da sua época, de valor reconhecido até aos dias de hoje. Nascido em Setúbal em 1819, António Maria Eusébio nela constituiu a sua família e nela mereceu os elogios públicos que hoje o engrandecem cada vez mais: tem o nome gravado na rua e na casa onde nasceu; tem busto de bronze no Jardim onde cantou os seus versos; tem dignamente publicada toda a sua obra literária; foi há pouco agraciado com a medalha municipal de Actividades Culturais em cerimónia pública e na presença da família que na cidade continua a dignificá-lo cem anos após a sua morte. Com esta homenagem, António Maria Eusébio entrou definitivamente na galeria dos grandes poetas setubalenses.
 
                      Rogério Claro

                     

                           DE QUE SERVE A POESIA?


                                   De que serve a Poesia

                             a um homem como eu?

                             Para viver pobremente
                             como Bocage viveu.



                    De que serve o bom talento

                    num homem sem ter fortuna?
                    se lhe falta esta coluna
                    não lhe dão merecimento.
                    Até o fraco alimento
                    às vezes ninguém lhe fia
                    outras vezes passa o dia
                    sem almoço ou sem jantar.
                    E vão-lhe então perguntar
                        de que serve a Poesia?

                    Só para o comprometer
                    nalgumas obras que fez
                    serve para a estupidez
                    de até dele escarnecer.
                    Para o fazer padecer
                    o que alguém já padeceu
                    serve p`ra não ter de seu
                    às vezes nem um vintém.
                    Esse serviço está bem
                        a um homem como eu.

                    Serve p`ra ser desonrado
                    sem motivo nem razão
                    ter nome de mandrião
                    quem tanto tem trabalhado.
                    Serve p`ra andar mal trajado
                    serve p`ra andar indecente
                    e p`ra quando está doente
                    não ter nenhum tratamento.
                    Quem serve p`ra tal tormento
                        é p`ra viver pobremente.

                    De que serve a um pobre homem
                    cantar ou tocar viola?
                    Só para pedir esmola
                    p`ra pagar o pão que come.
                    Serve para sofrer fome
                    quando alguém não lhe valeu.
                    Serve enquanto não morreu
                    para sentir o que sinto
                    ora farto, ora faminto
                        como Bocage viveu.


                                      OS NOSSOS POETAS


     O MENDIGO


O pobre mendigo,

Vivendo na rua!
Chamam-lhe sem abrigo,
Tem por luz a da lua!

Nada tem de seu,
Vagueando pelas ruas!
Será cristão ou ateu?
Mostra suas carnes nuas!

Vivendo de caridade,
Olhado com indiferença!
Suportando a maldade,
Não tem lar nem dispensa

Dorme onde calha,
Na noite gelada!
Que Deus lhe valha,
E ache um vão de escada!
  
Agasalha-se com farrapos,
Tapa-se com caixas de cartão!
As roupas são trapos,
Que algumas almas lhe dão!

Desprezados da sociedade,
Ignorados por todos!
Neste mundo de maldade,
Passam fome a rodos!

Lembrados pelo Natal,
Ou no rigoroso inverno!
Por ser dia especial,
Terão um dia fraterno!

Arrastam os anos de vida,
Já indiferentes ao mundo!
Existência muito corroída,
Vida de pobre vagabundo!

A morte deixa-os indiferentes,
Porta aberta de salvação!
São pedintes indigentes,
Findam a vida sem condição

                        J. Rodrigues




             O DESTINO DAS FLORES…

Até nas próprias flores

Se nota a pouca sorte;

Umas enfeitam os Amores,
Outras enfeitam a morte!...

Se a estrada da vida é má,
Não vale a pena de clamores;
Triste sorte também há,
Até nas próprias flores…

Se tiraram teus valores,
Procura seres a mais forte;
Olha que até nas flores,
Se nota a pouca sorte…

As flores são todas lindas,
No seu estilo e nas cores;
Nem todas são preferidas,
Umas enfeitam os Amores!...

Em cada ramo de flores,
Há um destino tão forte:
Umas unem os amores,
Outras enfeitam a morte!...

                Mavilde Baião


                  BOLA

As audiências da bola
Devem-se em larga medida
À propaganda que rola
Manipulando a torcida.

A prova desta verdade
É que onde não existe
Tão grande publicidade
O futebol não resiste.

O hóquei também “mereceu”
Por cá cartel de arromba,
Mas pouco sobreviveu
Ao frade de Santa Comba…

Veja-se o caricato
Futebol americano,
Mas para eles um prato
De paladar soberano…

Já sabia um tal Ford
Que a propaganda é cortina
Fazendo dum fraco acorde
Uma sonata divina.

Antes do homem na lua,
Apoucando-lhes a obra,
Já lá estava a falcatrua
Vendendo banha de cobra…

                 Francisco Pratas


                    DICAS SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO


     Tem havido muito desacordo no que ao Acordo Ortográfico respeita. Alguns adultos preferem escrever como sempre fizeram. No entanto, ele foi adotado nas escolas e muitos dos nossos associados têm filhos e netos. Para facilitar o diálogo com eles em termos de escrita, O Canto dos Poetas vai publicar algumas das alterações mais importantes introduzidas na escrita oficial portuguesa.
     O alfabeto português, que tinha 23 letras, passa a ter 26 pela introdução do K (capa ou cá), do W (dâblio ou duplo V) e do Y (ípsilon ou i grego). São usados em:
     nomes próprios e seus derivados, como Wagner e Darwin,

     unidades monetárias, como Kwanza

  símbolos de uso internacional, como K (potássio) e kg (quilograma)

     topónimos, como Washington

     desportos, como windsurfe.

     Hoje ficamos por aqui, para não abusarmos da paciência dos leitores.
                                                                                             A.T.



                              ALCÁCER DO SAL

                    AS SUAS LENDAS E OS SEUS MITOS

Adicionar legenda

O concelho de Alcácer do Sal é o maior concelho do Distrito de Setúbal, pois tem uma área de 1 456 km2 e 14 287 habitantes (último senso) distribuídos pelas suas 6 freguesias; lamentavelmente, Alcácer não tem ligação directa com o Oceano Atlântico, vítima de uma má divisão administrativa, imposta sem qualquer sentido lógico.
Alcácer do Sal é uma terra antiquíssima, pois a presença humana tem lugar desde há cerca de 40 000 anos. A atestá-lo, estão os artefactos recolhidos um pouco por toda a região.
Já teve diversos nomes ao longo dos milénios. É uma das cidades mais antigas da Europa, fundada pelos fenícios 1.000 anos A.C. Pela sua importância e grandeza, emparceirava com Setúbal e Lisboa. Sempre foi palco de ocupações sucessivas por populações cujas origens se perdem na noite dos tempos.
Esta região, com a chegada dos romanos aí por volta do ano 130 A.C, era bastante desenvolvida. Os seus habitantes descendiam da mestiçagem dos naturais com os celtas e com outros povos que em deslocações pacíficas se foram caldeando.
Com a romanização a cidade passou a ser designada por Salácia Urbs Imperatória com estatuto de cidade de Direito Latino e tinha o poder de cunhar moeda. Os romanos impulsionaram o desenvolvimento da pesca e da indústria conserveira assim como desenvolveram também a indústria da cerâmica para que pudessem exportar as suas conservas.
No século I D.C. era já uma região mais que autossuficiente, o seu desenvolvimento era tal, que se afirmou como centro de exportação em larga escala, de conservas, sal, cereais, lã, cavalos e construção naval. O seu porto fluvial era seguro e de entrada fácil e a demanda ao Oceano Atlântico era sem perigo.
A ocupação romana ocorreu desde o ano de 130 A.C. ao ano 409 D.C. data em que começou o desmoronamento do império.
A partir de 409 foi uma época de correrias, razias, desencadeadas pelos Vândalos, Alanos e Suevos, povos que migraram do centro da Europa; foi um período curto, mas de muita destruição e estagnação que durou até ao ano 465, altura em que o império Visigótico se impôs, passando dominar a região.




No tempo dos visigodos a região recuperou e até prosperou. Foi uma época de acalmia. Nos anos 712/715, tropas islâmicas, atravessaram em massa o estreito de Gibraltar invadindo a Península Ibérica, que de escaramuça em escaramuça foram ocupando vastas áreas até que derrotaram definitivamente os visigodos na célebre batalha de Guadalete, ocupando praticamente toda a Península.
Sob a administração árabe a cidade de Salácia passou a ser designada por Alcácer do Sal. O seu desenvolvimento foi imenso, sob a égide sarracena atingindo o apogeu em esplendor.
No ano 997 os sarracenos organizaram em Alcácer uma esquadra e foram atacar Santiago de Compostela, onde provocaram grandes estragos, regressando com um rico saque.
Quando os cristãos se apossaram de Palmela e passaram a campear por toda a margem direita do rio Sado, em razias e pilhagens constantes, com hostilização permanente à navegação rio acima, a vida começou a tornar-se difícil em Alcácer do Sal, o que levou a cidade a entrar em declínio. Esta situação atingiu tal magnitude que toda área a norte de Alcácer passou a ser terra de ninguém.
Em 1158 D. Afonso Henriques organizou uma surtida, que foi bem-sucedida, culminando na conquista da cidade. O conquistador não permitiu a pilhagem do burgo e, até foi bastante magnânimo com população, negociando com os seus representantes a sua permanência, assim como a posse dos seus bens, a par de poderem exercer as suas actividades desde que pagassem o tributo anual e ao mesmo tempo mostrassem obediência e acatamento às determinações afonsinas. Após este acordo, e a execução de obras de restauro nas estruturas defensivas, D. Afonso Henriques instalou um forte contingente militar no castelo e nomeou o seu alcaide para governação da cidade. Confiante partiu de regresso a Lisboa. Depois da cessação das hostilidades a cidade voltou ao seu antigo dinamismo, os mercadores recomeçaram a sua actividade, a terra voltou a ser produtiva, e a vida recompôs-se.
Passados poucos anos de governação cristã, a cidade voltou novamente à posse da moirama, e segundo consta, com a cumplicidade da população. A guarnição afonsina foi totalmente dizimada.
Em 1217 D. Afonso II, com a ajuda duma esquadra de cruzados que se dirigia à Terra Santa, reconquistou a cidade de Alcácer após feroz cerco e os seus habitantes foram impedidos de sair. Depois do saque consumado, tudo o que estava vivo dentro das muralhas foi passado a fio de espada, como represália pela população ter quebrado o seu antigo compromisso de obediência. As leis da guerra eram impiedosas, esta prática era de uso comum naquela época.
A cripta do edifício da Pousada, em termos arqueológicos é de uma riqueza sem paralelo, tem um percurso muito bem delineado, onde é possível observar vestígios em diversos estratos, deixados pelas gerações que por ali passaram ao longo de três milénios.
Tudo está devidamente legendado. Uma visita mesmo apressada não se faz em menos de duas horas. As visitas organizadas podem ser acompanhadas por um técnico que em termos de informação chega ao pormenor.

                                                          Henrique Mateus





segunda-feira, 3 de setembro de 2012


            


O CANTO DOS POETAS



           O Canto dos Poetas homenageia hoje o poeta setubalense João Carlos Raposo Nunes que, até deixar de escrever, há mais de uma dezena de anos, produziu uma obra notável.



            Aqui fica o prefácio de Bulbul (Cânticos Arrábidos), escrito por Agostinho da Silva. O texto foi também publicado de forma isolada no jornal África em agosto de 1990.

 A Arrábida espera. Deixemos por agora de considerar e falar do esporão de Palmela, pois dele tem ido tomando conta Santiago, seu Senhor e Dono, e, como tem de ser, seu inspirador de futuro. Partiremos das arribas de Setúbal e veremos, como apoio e empurrão de largada, a um tempo, o Grupo que Raposo Nunes tem congregado em sua Arca do Setubalense, e, como mais perto e excelente incitamento à empresa, o livro de Poemas que publicará em breve sob o título de Bulbul, ou seja, o rouxinol de Oriente, em que, num perfeito domínio da linguagem e de toda a musicalidade exterior do verso, lhe dá equilibrado vertebrar a musicalidade interna de ver todo o passado como projeto de futuro, de se tomar saudade como o valente desejo e a premonição de que virá tempo em que olharemos a Serra como o triângulo para além da terra e à terra vinculado de que são extremos Europa, Ásia e África e em que nos ajoelharemos perante o Brasil, criação máxima dos Portugueses e modelo que se mostrará de todo o mundo a vir, de um mundo novo nem avaro nem triste; não esqueceremos o patrono geral, místico dos céus sem que ao mundo esqueça, Frei Agostinho da Cruz, com sua cela de monte e sua gineta de companhia, nem esquecerei eu o trabalho de Orlando Ribeiro, o primeiro que, com sua implícita metafísica, pôs mais ordem no que se pensaria caos do que jamais fará o moderno progresso dos fractais, em que matemática irá a domínios de que estava esquecida, mas que felizmente nunca avançará bastante para que da vida desapareça o que a faz de interesse, isto é, o inesperado da suprema e verdadeira criatividade; não esqueceu o Autor, sempre na melhor inspiração, olhar em Sebastião da Gama o sentido das viagens que se julgam impossíveis e o sacrifício na batalha que todos têm julgado desastrosa, mas que travou os Turcos, firmou economia do Brasil e amparou em provações gente de um e outro lado do Atlântico; à Senhora do Cabo chegaremos e aí estará a recordação do génio analítico de Keil do Amaral ante o genético génio do Povo. Por agora, ficaremos em Setúbal, para que todos possamos discutir e entender neste Império, de que tem de ser Alferes Raposo Nunes, o canto do bulbul, agora a ave mesmo. O faremos pensando no Castelo que homenageou o rei Filipe e faremos que desta vez perceba ele como é o Entre-Sado-e-Tejo a verdadeira capital do que pelo mundo tenha sido semeadura ibérica. Não nos faltará a nenhum de nós audácia e reflexão; sabemos que a loucura só vale quando não falta o juízo. A tudo vamos, connosco venham.
                                                                                                        A.T.


                           ENTRE-SADO-E-TEJO 

                                             (4º Cântico Arrábido)

               Dois rios me olham
               como dois sóis apagados.
               Neve de fogo onde me devolvo
               a escrever na noite visionária
               o deslumbramento da Língua.

               A Arrábida me deixa gravado nos pés
               o sangue do caminho.

               Louco do Império
               Cavaleiro da Pátria
               sílaba a sílaba tocando o céu
               que desloca as estrelas que ensinam.

               Entre-Sado-e-Tejo
               rompe a aurora a profecia.
               O Atlântico chega ao portinho,
               Imensa Bacia
               onde lavamos as chagas
               abertas do mundo.



                  MICRO-POEMA a Miguel Torga


               Recolherei das Naus a Poesia,
               a Saudade salgada de distância,
               a memória calcinada nos porões
               da esperança.
               E não me esquecerei do vento,
               das marés-vivas, do encanto bailando
               nas vagas do Oriente.
               Jamais os antepassados serão para mim
               o passado – mas sim o futuro que se lê
               nas constelações, nos enigmas, nas areias finas
               da Lusitana terra bem amada.



OS NOSSOS POETAS


                                              BANCO DE JARDIM


Sentei-me no banco do jardim
E fiquei inebriada
A respirar o perfume
Daquelas flores tão belas
Cintilando como estrelas
Tão felizes sem queixumes
Num recanto do jardim.
Cada cor uma flor
Beijando-se com amor
Numa amizade sem fim
Realçando sua beleza
Bailando em liberdade
Transmitindo felicidade
Encantos da natureza!
Este jardim sedutor
Que tem assim tanta flor
Qual delas a mais bela
Se eu fosse pintor
Pintava com amor
Uma linda aguarela!
Flores o mais belo tema
Dá-nos prazer à vida
Minha alma enternecida
Fez este simples poema!


                                             Celeste Santos



            SENDO DIFERENTES; MAS IGUAIS!


Se o mundo, um dia achar sabedoria,
Quando então souber compreender,
Nesta vida tudo muda e varia,
Todos os dias estamos a aprender!
  
Na verdade, parecemos todos iguais,
Mas nesta parecença; somos diferentes,
Conquanto há os que se parecem mais,
Pensando até serem os mais inteligentes!

Mas tal como os frutos e as flores,
Que nos podem mais atrair e agradar,
Sendo variadas e lindas suas cores,
Por serem diferentes têm variar!

Assim acontece com a humanidade,
Distinguindo-se pela cor da pele ou raça!
Diferentes, mas sem haver desigualdade,
Atendendo à sua condição de sua graça!
  
As pessoas, sendo seres especiais,
Seres únicos no conceito da criação,
Será impossível encontra dois iguais,
Aos diferentes daremos mais dedicação!
  
É nessa desigualdade encontrada,
Que pomos à prova o nosso carinho,
À humanidade deve ser apresentada,
A obra desenvolvida neste cantinho!

                                J. Rodrigues


              RIO DOS AMORES


Rio dos amores,
Jardim de flores enfeitado,
Por entre o emancipado
Quadro de mil cores,
Rosas a florir em plena alvorada,
Canto que vem da alma,
Rasgo que traz o tempo,
Vago sentimento,
Sereno onde a calma
É mulher feiticeira,
A chamar por mim,
Como que uma flor de jasmim,
Aqui mesmo à minha beira,
Poema que vence a liberdade,
sob vozes gritantes que intervêm,
soando mais alto que antevêem,
um travo amargo de saudade!

                                    Mário Serra



                   SEM DIVIDIR PARA REINAR


Amizade a todos dar
Sem sombra de presunção;
Sem dividir para reinar,
Só o nobre coração!

Na sua simplicidade
Não se ver lá nas “Alturas”,
Onde algumas criaturas
Se veem na sua vaidade.
Sem disfarces de bondade
Nem falso aperto de mão,
E sem imposta condição
De quem deve ou não falar;
Amizade a todos dar,
Sem sombra de presunção!

Amizade a cem por cento,
Saber dar e receber;
E com todos conviver,
Sem máscara de fingimento,
É ter na alma sentimento
E no peito gratidão;
Essa sublime devoção,
De amizades partilhar,
Sem dividir para reinar,
Só o nobre coração!

       Luís Francisco Chainho


                                FOTOGRAFIAS



Não é o que parece...Não passa da fotografia invertida de um pedaço de tronco de diospireiro.
                               A.T.


                          SETÚBAL ANTIGA

                          FONTE DE PALHAIS (II)




No artigo anterior demos a conhecer os dados históricos desta fonte, mas há outros factos que são muito pouco conhecidos, talvez por serem baseados, no consta, no diz-se que, e como têm sido transmitidos oralmente de geração em geração, já terão muito pouco de realidade, parecendo-se mais com a lenda.
O que vos vou transmitir foi-me relatado pela D. Raquel, senhora já muito idosa, aí pelos seus noventa anos, mas muito lúcida. Simpatiquíssima, gostava de falar sobre Setúbal de coisas que ouviu á sua avó, segundo me dizia. No ano de 1978 ainda residia no segundo andar do prédio nº.11 da Travessa da Portuguesa, onde a conheci, num caso meramente fortuito; dizia-me que vivia só e que o que mais a assustava era a solidão, pelo que anuí em falar com ela de vez em quando no café Benjamim onde era hábito ir tomar café. Creio que este estabelecimento ainda existe na Av. cinco de Outubro. A D. Raquel tinha um poder comunicativo que encantava.
Caro leitor: quero que fique ciente que, (segundo o velho ditado de que quem conta um conto, acrescenta-lhe sempre um ponto) eu para não fugir à regra, do que lhe vou falar, muita coisa acabei por acrescentar e, vamos, adaptei, ancorado na imaginação criativa para que o relato ficasse mais floreado, e até mais interessante.
Os aguadeiros de Setúbal eram uma corporação laboriosa que garantia o abastecimento de água á cidade. Naqueles tempos não havia um serviço público de abastecimento, eram os aguadeiros que prestavam esse serviço, mediante contrato ou a determinado preço por bilha. Quem não podia comprar a água, teria que se abastecer nas diversas fontes da cidade, sujeitando-se às circunstâncias.
Os aguadeiros tinham um líder, conhecido por Toino Marau, homem de compleição física avantajada, namoradeiro, exímio jogador de pau, metediço com as mulheres de tal maneira que poucas ficavam indiferentes aos seus piropos.
Os almocreves eram outra classe laboriosa. Seriam os chauffeurs de hoje. Eram eles os garantes de uma boa circulação rodoviária. Conduziam trens, caleches, palaus, enfim todo o tipo de carripanas e eram mestres a lidar com os animais. Também eram eles que com carroças, asseguravam o transporte de todo o tipo de mercadorias dentro e entre as povoações vizinhas, quer para consumo corrente, quer para abastecer as feiras e mercados das redondezas. (Estes almocreves eram designados por carroceiros, e tinham uma linguagem muito própria).
Os almocreves também tinham o seu líder como não podia deixar de ser e era conhecido pela alcunha de Zé Bom (Hum! de bom é que não tinha nada), que além ter os mesmos dotes do Toino Marau , ainda tinha outros: era bonitão, cantava e dançava muito bem e também tinha a arte de endireita; era ele que após algum trambolhão dos seus clientes, lhes punha os ossos no lugar. Ora com tantas dotações, a par de não ter qualquer laivo de vergonha, era um D. Juan nato.
Estes dois personagens, Toino Marau e Zé Bom, criavam situações de ciumeira, inveja, desassossego e um mau estar geral permanente entre a população, que embora se mantivesse em acalmia, esta não passava de aparente; o descontentamento fervilhava em surdina, só que não explodia por temor aos dois mariolas. Pois tanto o Toino Marau como o Zé Bom eram lestos em distribuir umas boas fangueiradas pelos recalcitrantes ao menor pretexto, obrigando os chifrudos a serem mais comedidos.
Estas situações chegavam aos ouvidos do padre José Maria que oficiava na igreja de Santa Maria, que através da confissão estava bem inteirado do que se passava. Em sua opinião, o Toino Marau e o Zé Bom eram umas autênticas pestes. Por mais de uma vez os chamou à sacristia pregando-lhe grandes sermões sobre a sua conduta moral, chegando até mesmo a ameaçá-los com a excomunhão, sem quaisquer resultados.
A fonte de Palhais era a preferida dos almocreves para dar água aos seus animais. Estavam sempre presentes.
Os aguadeiros, pela fama que as águas da fonte de Palhais tinham de ser milagrosas, os seus clientes exigiam-na. Como tal era ali que iam encher as bilhas.
Aguadeiros e almocreves, era muita gente para uma fonte tão pequena. Nas horas de ponta formavam-se filas de espera. Nestas situações a paciência às vezes esgotava-se, havia sempre um outro mais oportunista que não estava pelos ajustes de respeitar a fila organizada, e quando isto acontecia, os conflitos tomavam proporções preocupantes, com aguadeiros e almocreves a enfrentarem-se em grandes refregas.
Estas situações só aconteciam quando os lideres não estavam presentes, mas assim que um chegava, os ânimos serenavam, e quando alguns contendores mais belicosos não se acomodavam, os líderes agarravam nos varapaus e distribuíam umas bordoadas e os ânimos acalmavam logo, regressando a paz e a concórdia finalmente ao terreiro.
Naqueles tempos a vida era violenta, os direitos, o respeito e as boas maneiras eram impostas pela força, quase sempre com injustiça.
O Toino Marau e o Zé Bom não eram amigos, davam-se razoavelmente bem, ambos eram chefes de facções com perspectivas diferentes mas… no fundo respeitavam-se, melhor, temiam-se… e dai a razão da cordialidade entre ambos.
Tanto um como o outro sabiam que se alguma vez se enfrentassem, um sairia vencido, mas como a vitória era duvidosa para qualquer dos lados, preferiam por estratégia mostrar uma boa relação e assim manter o prestígio junto das suas falanges. No entanto era notório que entre eles existia um odiozinho de estimação.
                                                                                       Henrique Mateus