segunda-feira, 3 de setembro de 2012


            


O CANTO DOS POETAS



           O Canto dos Poetas homenageia hoje o poeta setubalense João Carlos Raposo Nunes que, até deixar de escrever, há mais de uma dezena de anos, produziu uma obra notável.



            Aqui fica o prefácio de Bulbul (Cânticos Arrábidos), escrito por Agostinho da Silva. O texto foi também publicado de forma isolada no jornal África em agosto de 1990.

 A Arrábida espera. Deixemos por agora de considerar e falar do esporão de Palmela, pois dele tem ido tomando conta Santiago, seu Senhor e Dono, e, como tem de ser, seu inspirador de futuro. Partiremos das arribas de Setúbal e veremos, como apoio e empurrão de largada, a um tempo, o Grupo que Raposo Nunes tem congregado em sua Arca do Setubalense, e, como mais perto e excelente incitamento à empresa, o livro de Poemas que publicará em breve sob o título de Bulbul, ou seja, o rouxinol de Oriente, em que, num perfeito domínio da linguagem e de toda a musicalidade exterior do verso, lhe dá equilibrado vertebrar a musicalidade interna de ver todo o passado como projeto de futuro, de se tomar saudade como o valente desejo e a premonição de que virá tempo em que olharemos a Serra como o triângulo para além da terra e à terra vinculado de que são extremos Europa, Ásia e África e em que nos ajoelharemos perante o Brasil, criação máxima dos Portugueses e modelo que se mostrará de todo o mundo a vir, de um mundo novo nem avaro nem triste; não esqueceremos o patrono geral, místico dos céus sem que ao mundo esqueça, Frei Agostinho da Cruz, com sua cela de monte e sua gineta de companhia, nem esquecerei eu o trabalho de Orlando Ribeiro, o primeiro que, com sua implícita metafísica, pôs mais ordem no que se pensaria caos do que jamais fará o moderno progresso dos fractais, em que matemática irá a domínios de que estava esquecida, mas que felizmente nunca avançará bastante para que da vida desapareça o que a faz de interesse, isto é, o inesperado da suprema e verdadeira criatividade; não esqueceu o Autor, sempre na melhor inspiração, olhar em Sebastião da Gama o sentido das viagens que se julgam impossíveis e o sacrifício na batalha que todos têm julgado desastrosa, mas que travou os Turcos, firmou economia do Brasil e amparou em provações gente de um e outro lado do Atlântico; à Senhora do Cabo chegaremos e aí estará a recordação do génio analítico de Keil do Amaral ante o genético génio do Povo. Por agora, ficaremos em Setúbal, para que todos possamos discutir e entender neste Império, de que tem de ser Alferes Raposo Nunes, o canto do bulbul, agora a ave mesmo. O faremos pensando no Castelo que homenageou o rei Filipe e faremos que desta vez perceba ele como é o Entre-Sado-e-Tejo a verdadeira capital do que pelo mundo tenha sido semeadura ibérica. Não nos faltará a nenhum de nós audácia e reflexão; sabemos que a loucura só vale quando não falta o juízo. A tudo vamos, connosco venham.
                                                                                                        A.T.


                           ENTRE-SADO-E-TEJO 

                                             (4º Cântico Arrábido)

               Dois rios me olham
               como dois sóis apagados.
               Neve de fogo onde me devolvo
               a escrever na noite visionária
               o deslumbramento da Língua.

               A Arrábida me deixa gravado nos pés
               o sangue do caminho.

               Louco do Império
               Cavaleiro da Pátria
               sílaba a sílaba tocando o céu
               que desloca as estrelas que ensinam.

               Entre-Sado-e-Tejo
               rompe a aurora a profecia.
               O Atlântico chega ao portinho,
               Imensa Bacia
               onde lavamos as chagas
               abertas do mundo.



                  MICRO-POEMA a Miguel Torga


               Recolherei das Naus a Poesia,
               a Saudade salgada de distância,
               a memória calcinada nos porões
               da esperança.
               E não me esquecerei do vento,
               das marés-vivas, do encanto bailando
               nas vagas do Oriente.
               Jamais os antepassados serão para mim
               o passado – mas sim o futuro que se lê
               nas constelações, nos enigmas, nas areias finas
               da Lusitana terra bem amada.



OS NOSSOS POETAS


                                              BANCO DE JARDIM


Sentei-me no banco do jardim
E fiquei inebriada
A respirar o perfume
Daquelas flores tão belas
Cintilando como estrelas
Tão felizes sem queixumes
Num recanto do jardim.
Cada cor uma flor
Beijando-se com amor
Numa amizade sem fim
Realçando sua beleza
Bailando em liberdade
Transmitindo felicidade
Encantos da natureza!
Este jardim sedutor
Que tem assim tanta flor
Qual delas a mais bela
Se eu fosse pintor
Pintava com amor
Uma linda aguarela!
Flores o mais belo tema
Dá-nos prazer à vida
Minha alma enternecida
Fez este simples poema!


                                             Celeste Santos



            SENDO DIFERENTES; MAS IGUAIS!


Se o mundo, um dia achar sabedoria,
Quando então souber compreender,
Nesta vida tudo muda e varia,
Todos os dias estamos a aprender!
  
Na verdade, parecemos todos iguais,
Mas nesta parecença; somos diferentes,
Conquanto há os que se parecem mais,
Pensando até serem os mais inteligentes!

Mas tal como os frutos e as flores,
Que nos podem mais atrair e agradar,
Sendo variadas e lindas suas cores,
Por serem diferentes têm variar!

Assim acontece com a humanidade,
Distinguindo-se pela cor da pele ou raça!
Diferentes, mas sem haver desigualdade,
Atendendo à sua condição de sua graça!
  
As pessoas, sendo seres especiais,
Seres únicos no conceito da criação,
Será impossível encontra dois iguais,
Aos diferentes daremos mais dedicação!
  
É nessa desigualdade encontrada,
Que pomos à prova o nosso carinho,
À humanidade deve ser apresentada,
A obra desenvolvida neste cantinho!

                                J. Rodrigues


              RIO DOS AMORES


Rio dos amores,
Jardim de flores enfeitado,
Por entre o emancipado
Quadro de mil cores,
Rosas a florir em plena alvorada,
Canto que vem da alma,
Rasgo que traz o tempo,
Vago sentimento,
Sereno onde a calma
É mulher feiticeira,
A chamar por mim,
Como que uma flor de jasmim,
Aqui mesmo à minha beira,
Poema que vence a liberdade,
sob vozes gritantes que intervêm,
soando mais alto que antevêem,
um travo amargo de saudade!

                                    Mário Serra



                   SEM DIVIDIR PARA REINAR


Amizade a todos dar
Sem sombra de presunção;
Sem dividir para reinar,
Só o nobre coração!

Na sua simplicidade
Não se ver lá nas “Alturas”,
Onde algumas criaturas
Se veem na sua vaidade.
Sem disfarces de bondade
Nem falso aperto de mão,
E sem imposta condição
De quem deve ou não falar;
Amizade a todos dar,
Sem sombra de presunção!

Amizade a cem por cento,
Saber dar e receber;
E com todos conviver,
Sem máscara de fingimento,
É ter na alma sentimento
E no peito gratidão;
Essa sublime devoção,
De amizades partilhar,
Sem dividir para reinar,
Só o nobre coração!

       Luís Francisco Chainho


                                FOTOGRAFIAS



Não é o que parece...Não passa da fotografia invertida de um pedaço de tronco de diospireiro.
                               A.T.


                          SETÚBAL ANTIGA

                          FONTE DE PALHAIS (II)




No artigo anterior demos a conhecer os dados históricos desta fonte, mas há outros factos que são muito pouco conhecidos, talvez por serem baseados, no consta, no diz-se que, e como têm sido transmitidos oralmente de geração em geração, já terão muito pouco de realidade, parecendo-se mais com a lenda.
O que vos vou transmitir foi-me relatado pela D. Raquel, senhora já muito idosa, aí pelos seus noventa anos, mas muito lúcida. Simpatiquíssima, gostava de falar sobre Setúbal de coisas que ouviu á sua avó, segundo me dizia. No ano de 1978 ainda residia no segundo andar do prédio nº.11 da Travessa da Portuguesa, onde a conheci, num caso meramente fortuito; dizia-me que vivia só e que o que mais a assustava era a solidão, pelo que anuí em falar com ela de vez em quando no café Benjamim onde era hábito ir tomar café. Creio que este estabelecimento ainda existe na Av. cinco de Outubro. A D. Raquel tinha um poder comunicativo que encantava.
Caro leitor: quero que fique ciente que, (segundo o velho ditado de que quem conta um conto, acrescenta-lhe sempre um ponto) eu para não fugir à regra, do que lhe vou falar, muita coisa acabei por acrescentar e, vamos, adaptei, ancorado na imaginação criativa para que o relato ficasse mais floreado, e até mais interessante.
Os aguadeiros de Setúbal eram uma corporação laboriosa que garantia o abastecimento de água á cidade. Naqueles tempos não havia um serviço público de abastecimento, eram os aguadeiros que prestavam esse serviço, mediante contrato ou a determinado preço por bilha. Quem não podia comprar a água, teria que se abastecer nas diversas fontes da cidade, sujeitando-se às circunstâncias.
Os aguadeiros tinham um líder, conhecido por Toino Marau, homem de compleição física avantajada, namoradeiro, exímio jogador de pau, metediço com as mulheres de tal maneira que poucas ficavam indiferentes aos seus piropos.
Os almocreves eram outra classe laboriosa. Seriam os chauffeurs de hoje. Eram eles os garantes de uma boa circulação rodoviária. Conduziam trens, caleches, palaus, enfim todo o tipo de carripanas e eram mestres a lidar com os animais. Também eram eles que com carroças, asseguravam o transporte de todo o tipo de mercadorias dentro e entre as povoações vizinhas, quer para consumo corrente, quer para abastecer as feiras e mercados das redondezas. (Estes almocreves eram designados por carroceiros, e tinham uma linguagem muito própria).
Os almocreves também tinham o seu líder como não podia deixar de ser e era conhecido pela alcunha de Zé Bom (Hum! de bom é que não tinha nada), que além ter os mesmos dotes do Toino Marau , ainda tinha outros: era bonitão, cantava e dançava muito bem e também tinha a arte de endireita; era ele que após algum trambolhão dos seus clientes, lhes punha os ossos no lugar. Ora com tantas dotações, a par de não ter qualquer laivo de vergonha, era um D. Juan nato.
Estes dois personagens, Toino Marau e Zé Bom, criavam situações de ciumeira, inveja, desassossego e um mau estar geral permanente entre a população, que embora se mantivesse em acalmia, esta não passava de aparente; o descontentamento fervilhava em surdina, só que não explodia por temor aos dois mariolas. Pois tanto o Toino Marau como o Zé Bom eram lestos em distribuir umas boas fangueiradas pelos recalcitrantes ao menor pretexto, obrigando os chifrudos a serem mais comedidos.
Estas situações chegavam aos ouvidos do padre José Maria que oficiava na igreja de Santa Maria, que através da confissão estava bem inteirado do que se passava. Em sua opinião, o Toino Marau e o Zé Bom eram umas autênticas pestes. Por mais de uma vez os chamou à sacristia pregando-lhe grandes sermões sobre a sua conduta moral, chegando até mesmo a ameaçá-los com a excomunhão, sem quaisquer resultados.
A fonte de Palhais era a preferida dos almocreves para dar água aos seus animais. Estavam sempre presentes.
Os aguadeiros, pela fama que as águas da fonte de Palhais tinham de ser milagrosas, os seus clientes exigiam-na. Como tal era ali que iam encher as bilhas.
Aguadeiros e almocreves, era muita gente para uma fonte tão pequena. Nas horas de ponta formavam-se filas de espera. Nestas situações a paciência às vezes esgotava-se, havia sempre um outro mais oportunista que não estava pelos ajustes de respeitar a fila organizada, e quando isto acontecia, os conflitos tomavam proporções preocupantes, com aguadeiros e almocreves a enfrentarem-se em grandes refregas.
Estas situações só aconteciam quando os lideres não estavam presentes, mas assim que um chegava, os ânimos serenavam, e quando alguns contendores mais belicosos não se acomodavam, os líderes agarravam nos varapaus e distribuíam umas bordoadas e os ânimos acalmavam logo, regressando a paz e a concórdia finalmente ao terreiro.
Naqueles tempos a vida era violenta, os direitos, o respeito e as boas maneiras eram impostas pela força, quase sempre com injustiça.
O Toino Marau e o Zé Bom não eram amigos, davam-se razoavelmente bem, ambos eram chefes de facções com perspectivas diferentes mas… no fundo respeitavam-se, melhor, temiam-se… e dai a razão da cordialidade entre ambos.
Tanto um como o outro sabiam que se alguma vez se enfrentassem, um sairia vencido, mas como a vitória era duvidosa para qualquer dos lados, preferiam por estratégia mostrar uma boa relação e assim manter o prestígio junto das suas falanges. No entanto era notório que entre eles existia um odiozinho de estimação.
                                                                                       Henrique Mateus




sexta-feira, 24 de agosto de 2012




                    O CANTO DOS POETAS





FLORBELA ESPANCA
(Vila Viçosa, 1894, Matosinhos, 1930)


O Canto dos Poetas saúda a entrada das senhoras no bloque. Já tardavam. Para as homenagear, considerámos adequado lembrar Florbela Espanca.
Alentejana arrebatada, Florbela atravessou a vida com inquietação e escolheu a morte prematura aos 36 anos. O acidente que, em 1927, vitimou o seu irmão Apeles, aviador da Marinha, terá fragilizado ainda mais o solo que pisava.
Apeles é um nome estranho entre nós. O pai chamou-o assim em homenagem ao pintor grego escolhido por Alexandre Magno para perpetuar a sua imagem.

                                                                                            Apeles é o terceiro da esquerda, em pé

Flor Bela e Apeles eram filhos ilegítimos de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo. O pai começou por ser sapateiro mas fez-se antiquário, negociante de cabedais, fotógrafo e empresário de cinema. As crianças foram criadas na casa paterna, tendo a mulher legítima de João Espanca por madrinha.
Florbela Espanca foi das primeiras raparigas portuguesas a frequentar um Liceu. Começou a escrever versos na adolescência e assinou o seu primeiro conto aos treze anos. Casou, pela primeira vez, em 1913. Colaborou em algumas revistas de Évora e matriculou-se em Direito, na Universidade de Lisboa. Não foi longe no estudo universitário. Publicou a sua primeira obra, o volume de sonetos Livro de Mágoas em 1919.
Divorciou-se, casou, e voltou a divorciar-se e a casar. A sua depressão evoluía. Encontrou dificuldades em publicar os seus poemas. Até a sua obra-prima Charneca em Flor tardou a encontrar editor. O seu último marido foi um médico. Sabe-se que santos da casa não fazem milagres mas, ao tempo, não existiam medicamentos eficazes para combater o seu mal. Depois de várias tentativas, Florbela Espanca envenenou-se com barbitúricos, no dia do seu 36º aniversário. Diz-se que pediu para lhe colocarem no caixão os restos do avião em que morreu o seu irmão Apeles. 
    Há quem atribua à reação de Florbela com Apeles um caráter incestuoso. A acusação carece de fundamento.
Florbela Espanca deixou uma obra variada que inclui poesia, contos e um diário. Dos seus versos sobressaem o individualismo e a solidão, tantas vezes ligados na vida. A poetisa não se prende a analisar a política nem os problemas sociais do seu País. Canta, acima de tudo, a paixão. Cultivou o soneto, técnica poética de estranha longevidade, que terá nascido na Sicília no século XIII e foi aperfeiçoada por Petrarca. Apesar das regras que o espartilham, o soneto teve força bastante para atravessar todos os movimentos literários conhecidos.
Escolhi o poema Saudades para ilustrar este texto. Poderia ter optado por muitos outros.

                                                          SAUDADES


Saudades! Sim… talvez… e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, não nos importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já me esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos se quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!


                             OS NOSSOS POETAS



UM POEMA TE ESCREVI

Esta noite, eu não dormi,
Minha mente não me deixou;
Um Poema eu te escrevi,
Meu coração mo ditou.

 A pensar como escrever,
Um Poema só para ti,
A saudade veio-me dizer!
Esta noite não dormi…

Vivendo na solidão,
Meu Amor, por ti senti!
Estando triste, meu coração,
Um Poema te escrevi!

De tanto em ti pensar,
O meu sono se ausentou;
E sem dormir fui ficar,
A mente não me deixou!

Nesta luta sem dormir,
Meu sentido viajou…
E um Poema… de sentir,
Meu coração mo ditou!

                  Mavilde Baião


SOU ALMA, SOU FLOR, SOU VENTO

No peito guardo a lembrança
Do mundo que nunca vi,
Dessa mágoa tão profunda,
de um amor que não vivi.

Caminho por entre as águas
Profundas da solidão,
No cabelo guardo o toque
Do calor da tua mão.

Sou alma, sou flor, sou vento,
Sou canção, sou pensamento,
Sou lembrança de um momento,
Sou palavra, sou tormento.

Na varanda espero a noite
Que me enche de saudade,
Não quero mais lembrar o tempo
Em que vesti a vaidade.

Este amor de capa e espada
Que rasga restos de mim,
Preenche todas as horas,
Transforma-me em arlequim.

Perdida em sons do momento,
Faço deles minha história,
Perco a noção do caminho,
Vivo envolta na memória.

Sou alma, sou flor, sou vento,
Sou canção, sou pensamento,
Sou lembrança de um momento,
Sou palavra, sou tormento!

                            Lou Alma


           O MEU MAR

Ò Mar revolto da minha paixão
Do meu sonho de menina inocente
És aguarela viva sempre recente
E pedaços de Amor e muita ilusão

Ò Mar inquietude da minha alvorada
Demência da Alma que deseja esquecer
O que outrora foi já o meu sofrer
Que dir-te-ia hoje de ti não querer nada

Ò Mar de encanto nas noites estreladas
Amar-te assim eu não sei porque o faço
Porque ao meu ser roubaste um pedaço
Que jaze desfeito nas tuas ondas prateadas

Ò Mar irrequieto beijando a areia
Desfalecendo na praia constantemente
No meu corpo eu queria ardentemente
Sentir o teu beijo como fora sereia

Ò Mar de amargura e de felicidade
De lucidez amarga e de confusão
Não sentindo rancor no meu coração
Eu juro amar-te com fidelidade

Ò Mar que abraço com o meu olhar
Que és pranto e dor dentro do peito
Mas diante de ti eu fico sem jeito
Sem saber a razão de tanto te amar.

                          Maria do Mar


                EU QUIS

Quis apagar o Inverno do meu rosto
Para que nele habitasse a Primavera
Como pétala amarelecida ao sol posto
Cai a noite e tudo apenas foi uma quimera

Quis lavar a alma com água da nascente
Que brota do meu olhar como caudal
Mas essa água sem eu saber e de repente
Passa a ser coisa nenhuma e tão banal

Quis cobrir-me de salpicos prateados
De maresia que encontro no meu mar
Mas num pranto os meus olhos já cansados
São um lago onde afogo o meu penar

Quis desfazer a nuvem do pensamento
Levando-a para longe deste meu ser
Mas algo mais forte como lamento
Fez na minha força eu à vida me render

Quis como Jesus sobre as águas caminhar
E ir mais longe num Outono indesejado
Nas margens do meu rio que já foi mar
Caminho sim, num sonho meu inacabado

Quis que o meu coração tivesse asas brancas
Para que no meu peito ele pudesse voar
Mas apesar da vida ser ela feita de mudanças
Eu quero sim, que meu coração não vá mudar.

                                              Maria Teresa Palmeira


SETÚBAL DE ONTEM E DE HOJE
FONTE DE PALHAIS

Esta fonte, ou fontanário, situa-se no final da Avenida Cinco de Outubro, frente ao jardim do Quebedo. A sua construção data de 1772.
O material empregue na sua construção é o mármore branco, sendo a sua planta bem delineada; são salientes os relevos constituídos pelo escudo das armas de Portugal, com arabescos, troncos, folhas, flores e algumas bagas de loureiro, encimada pela coroa imperial com cruz.
Tem bebedouro para animais e duas carrancas como bicas.
Consta que inicialmente as suas águas vinham canalizadas duma nascente situada um pouco acima do caminho-de-ferro, mais precisamente nos terrenos onde hoje existe a Travessa dos Cobertos, terra baldia na altura, embora dentro do recinto amuralhado. Tinham fama de ser águas milagrosas.
Esta fonte também era conhecida como chafariz de S. Bernardo, por nas imediações existir o convento da freiras Bernardas. Ao longo da sua história também foi conhecida por fonte dos Aguadeiros e por fonte dos Almocreves.
Ainda não há muito tempo a água deixou de correr pelas bicas desta fonte, ficando seca, abandonada, deixando de cumprir as funções para que tinha sido criada.
Hoje está cuidada e pelas suas bicas corre água, embora já não sirva para dessedentar os animais como outrora, mas… são os pombos que a fruem em pleno, dando-lhe até uma certa graça. A fonte, agora está linda, enquadrada por canteiros de relva, formando um cantinho agradável à sombra dos jacarandás. Nas tardes amenas, ali para o lado da noitinha, parece ainda ouvir-se o bulício dos outros tempos, quando toda a gente após o dia de trabalho vinha encher a sua bilha de água e tagarelar um pouco na coscuvilhice, naquele espaço que na altura devia ser um grande terreiro.
Com a idade, as coisas também morrem, mas esta fonte ainda não morreu, está bem viva na memória dos mais idosos que por ali passam, quedando-se saudosos dos tempos da sua juventude, quando ali vinham refrescar-se na sua água sempre fresquíssima.

                                                                        Henrique Mateus

                                                    CONTOS DO MUNDO  


                          A CAIXA DE SAPATOS


─ Ai o meu rico homem… ─ lamentava-se a tia Aldina, lavada em lágrimas. Ai o meu rico homem!
Rico nunca fora Zé Furtado. Era homem de trabalho e havia quem o considerasse o melhor podador da terra. Vivera melhor que os pobres, mas pouco lhe sobrara. Os pequenos terrenos que possuía eram os que ele e a mulher tinham herdado. Não bastavam para o sustento do casal. O Zé e a mulher alugavam os braços à jorna, sempre que havia oportunidade.
─ Ai o meu rico homem!
A tia Aldina estava cansada. Quando a voz lhe esmorecia, esforçava-se por gritar. Mulher que se prezasse devia chorar alto nos funerais dos seus.
O marido não tinha sido melhor nem pior que os mais da aldeia. Esforçava-se durante a semana mas, aos sábados, relaxava e passava os fins de tarde na sua pequena adega, situada no piso térreo da habitação. Era onde estavam as tulhas de cereais. Guardava lá duas pipas de vinho e um cântaro de azeite. Bebia sozinho e quase às escuras, sentado num banco de madeira.
O álcool não o punha alegre. Pelo segundo ou terceiro copo sentia-se eufórico, mas aquilo durava pouco. Mais um quartilho e dava-lhe para remoer as mágoas. Começava por analisar cada grande ou pequena frustração da semana que passara, saboreando a amargura como se fosse mel. Quando o álcool lhe aquecia as veias, obrigava-se a projetar no ecrã da alma os momentos piores de toda uma vida. Havia três episódios que nunca faltavam.
Não lhe coubera nada da herança da tia Maria, que morrera sem descendentes. Ao morrer, andava de mal com o irmão Joaquim, pai do Zé. Fizera testamento a favor dos filhos do irmão António. Ainda eram umas terras jeitosas, sem falar da casa… E lá ia mais um copo, para calar a mágoa.
Poucos anos depois, o velho Manuel Cantoneiro recusara dar-lhe a filha em casamento.
─ Quem é que aquele gajo pensava que era? ─ resmungava o Zé. Já está há muito a arder no inferno.
O pior que lhe acontecera na vida fora não ter sido apurado para a tropa por ser baixo. Quem era recusado passava por não ser homem inteiro.
─ Sou tão homem como qualquer um ─ repetia para si próprio.
Percorrida a via-sacra da amargura, levantava-se, com alguma dificuldade, subia a escada a cambalear e ia ter com a mulher que se refugiava no extremo da cama, debaixo das mantas, como se elas a pudessem proteger da tempestade que chegava. Nunca lhe faltavam pretextos para bater. A tia Aldina era sovada quase todos os sábados. Às vezes, depois de a espancar, o homem queria sexo.
─ Ai o meu rico homem…
Agora, parecia distante a brutalidade semanal. Os mortos são vistos sob outra luz. Os defeitos esbatem-se e as qualidades reluzem. Para Aldina, era como se as pancadas nunca lhe tivessem doído. 
Quando quatro homens pegaram o modesto caixão aos ombros e o fizeram descer as escadas, os gritos da viúva subiram de tom. Depois, soluçou durante meia hora e acabou por se calar.
No dia seguinte, no sótão da casa, as duas netas do finado entretinham-se a brincar. A Marta ia nos oito anos. Era magra, de rosto fino e tranças ruças. Mais nova, a Lídia tinha a cara larga e o cabelo escuro cortado curto.
As crianças sempre imitaram os adultos. As meninas daquele tempo divertiam-se com tachos velhos, vassouras e bonecas de trapos.
Ao morrer, Zé Furtado não tinha sapatos apresentáveis. A mulher mandara uma vizinha comprar uns novos à loja da tia Maria Raquelina, que vendia de tudo. Recomendara-lhe:
─ Não tragas uns caros… São para usar só uma vez.
As meninas tinham metido um boneco na caixa de sapatos, com algumas flores de cada lado. Lamentavam-se à vez:
─ Ai o meu rico homem…

                                                                        António Trabulo
                                       (integrado no livro CONTOS DE CÁ E DE LÁ, a publicar brevemente)